Memorial de Edison Simons Quiroz

De Casiopea




TítuloOs Olhos Do Gato - Memorial de Edison Simons
Año2001
AutorGerardo Mello Mourão
Tipo de PublicaciónEnsayo
Edición
CiudadRio de Janeiro
Páginas29
Palabras ClaveArchivo, Catálogo, Escuela, Ámbito, Poesía, Constel
Carreras RelacionadasArquitectura, Diseño Gráfico, Diseño Industrial, Náutico y Marítimo, Ciudad y Territorio

"Uma noite, na Índia, Luís de Camões, à falta de velas, escreveu parte de um Canto dos Lusíadas, à luz dos olhos de seus gatos. Tasso conta a mesma coisa: escreveu um soneto na escuridão do manicômio em que o haviam metido, alumiado pelos olhos de um gato. Suspeito que Baudelaire também tenha escrito uns alexandrinos sob a luz esverdeada de uns olhos de gato. Força da dislexia, lua do poema".

A informação, vagamente erudita, parece ser de Edi Simons. O breve e astuto comentário sobre a força lunar da dislexia, também, Digo Edi Simons porque assim está num pequeno livro apócrifo, trilíngüe, sem título na capa, sem indicação de autor nem de editor e até sem numeração de páginas, que me chegou de Paris na primavera, mas certamente escrito pelo poeta panamenho. Pois Edi Simons era poeta e nascido no Panamá. O volume artezanal traz apenas na primeira página interna três palavras em negrito: The unfinished Touch. Poucas semanas depois da remessa do livro apócrifo, o encontraram desacordado e caído em seu estúdio da Rue de Cotentin, torre abolida desse último príncipe solitário na Aquitânia de seu degredo, depois  da estreita cela de cenobita que ocupara na Rue de Lakanal. Dali o levaram para o Hospital Pompidou. Três dias mais, estava morto e, a pedido seu, uns amigos compassivos cremaram no Père Lachaise seu corpo dourado de índio, das índias do Oriente e do Ocidente, e espalharam suas cinzas sobre o Sena.

O livro apócrifo poderia chamar-se de Inventário, pois é uma espécie de documento notarial do ser e do saber do poeta absoluto que, jovem ainda, partiu de seu dramático non-lieu no dilacerado Istmo do Panamá para tantos exílios, longos ou efêmeros. Viveu e morreu na Espanha e na Suíça. às vezes em Genebra, às vezes numa aldeia de queijeiros, chamada Arouet, o nome de família de Voltaire. Morou em Londres e em Berlim, na Grécia, no Japão e no Chile, onde sobrevoou a cordilheira dos Andes, no temerário planador de Miguel Eyquem, um arquitecto voador daquela banda no Pacífico, ainda mais temerário ele mesmo que os audaciosos artefatos aeronáuticos com que costuma assustar os céus azuis de Valparaíso.

Nos anos sessenta, o poeta Simons perdeu-se num famoso safari épico-lírico chamado Amereida, nas fronteiras da Terra do Fogo, entre a Patagônia chilena e a Patagônia argentina, com acampamentos nos confins de Rio Gallegos e subidas setentionais ás cidades velhas e velhíssimas do Peru dos Vice-reis e do Peru dos Incas, e às avenidas de neve do altiplano boliviano. Acompanhava, então, um bando de poetas, pintores, filósofos e arquitetos franceses, argentinos, ingleses, bascos e chilenos. A malta poética inventada pelo gênio de Godofredo Iommi e Alberto Cruz era tão inverossímil, que, para escapar de suspeitas da polícia, levava como habeas-corpus um atestado do próprio Ministro da Defesa do Chile, obtido pelos bons ofícios do cineasta Patrício Kaulen. Já em expedição semelhante por cidades e aldeias do interior da França, a mesma comandita lírica se prevenia, para defender-se das suspeições da Segurança Pública, com um salvo-conducto ou visto bueno, uma carta abonadora de André Malraux, Ministro de De Gaulle, providenciada por arranjos do escritor espanhol José Bergamín, então exilado em Paris, segundo informa nossa querida Josée Lapeyrère, protagonista privilegiada e contumaz, ainda hoje, com a beleza de seus olhos e de sua sagrada voz poética, órfica e fiel, dessas maratonas líricas de alguns seres humanos dependentes do sagrado vício da ode e da elegia.
Edi Simons participou de expedições poéticas semelhantes, inventadas por Godo Iommi, produzindo poesia viva, em altos brados nas ruas e praças da Europa, da América e da Ásia, às vezes ao ar livre, às vezes em recintos fechados, como no pátio de uma velha cervejaria de Londres, onde Shakespeare encenara seus teatros, ou no Royal Albert Hall, arrendado pelo poeta Jonathan Boulting, e onde eu mesmo li, ao lado de Vanessa Redgrave, desvaída e envolta na bandeira de Cuba, um poeta despedaçado e bilíngüe, que ele transpusera para uma rara língua joyceana, a seis mil ingleses atônitos. Descemos o Tâmisa de madrugada com cinco mil rapazes e moças uivando versos dolorosos ou triunfantes numa fogata de trezentos barcos, para celebrar o sexto centenário do incêndio de Londres. Fizemos espetáculos semhelantes no veludo verde dos gramados londrinos do Hyde Park, em severos boulevards de Estocolmo, nos ingênuos parques da Dinamarca, nas praças de palácios romanos da Berlim imperial. Ali, Edi celebrou a rosa do mundo, ao lado da pintora brasileira Carla Galhardo , filha de um famoso cantor romântico do Rio de Janeiro, que hospedava, com seu marido alemão, também pintor, bom de pincéis e de charutos de Havana, na grande aldeia dessa Roma prussiana, inventada pelos romantismo alemão dos kaisers civilizados.
Celebrou, ao meu lado e ao lado de Godo e dos outros, com uns chifres de cobre na testa, esculpidos por Claudio Girola, e com um coro de dois mil estudantes, os fogos vulcânicos do Chile, numa caleta entre Valparaiso e Viña del Mar, entre hinos inventados ao clarão de espetáculos pirotécnicos. Outra vez, durante um dia inteiro, cantamos juntos, sob a batuta de Godofredo Iommi, na praia perdida de Horcón, a descoberta do Pacífico, diante da Ilha dos Lobos, com seus assombrosos leões marinhos de quatro metros de comprimento. Assobiamos canções, ao ritmo de mestres-de-capela bachiana, à moda dos jangadeiros que pescam o pargo encarnado e o ariacó de listas verde-azuis nas praias atlânticas do Brasil, num coro de assobios, para chamar o vento. O sopro fantástico dos assobios atravessou a América, com os pescadores de côngrio do pacífico entoando a mesma melodia marinha dos pescadores de garoupa cor de rosa no Atlântico meridional, no outro lado do continente. Entramos na água até as virilhas, repetindo com vozes roucas as imprecações de Balboa, bebendo como ele, na concha da mão, a água salgada, para a certeza de que estávamos num mar, e não numa pobre lagoa de água doce. Chamamos um a um, por seus nomes verdadeiros, em grandes brados, os pescadores mortos da caleta chilena e os nomes, constantes nas crônicas, dos marinheiros de Balboa no mar do Panamá. Depois, reiteramos às solidões oceânicas a fórmula sacral como que ele tomou posse, em nome do Rei de Espanha e da Virgem Maria, de todas aquelas ondas e das terras por elas banhadas. Éramos os donos do Oceano Pacifico. Em sinal de posse, deixamos plantada na areia sobre base de pedra, uma escultura metálica de Claudio Girola. Encerramos tudo com um banquete elementar de peixe assado e pipas de vinho maduro de Tarapacá, e ficamos arrotando na praia os vinhos bons e os esquisitos frutos do mar chileno. A estes atos, que costumava produzir em todo o mundo, com certos rituais da cabala cosmogônica ou eleusiana de Orfeu, o poeta Godo denominara de "Phalène".

Edi Simons, até na China aliciou, em madrugadas clandestinas, sob grandes riscos policiais, jovens chineses e chinesas para algumas dessas cerimônias poéticas. Delas participei aterrado, coberto pela cumplicidade de um jovem diplomata francês, depois incriminado por essa lírica insensatez e por seus amores proibidos com uma súbita menina de Pequim, fascinada por essas castas orgias líricas. O francês foi amaldiçoado pelo Comité Central de Chang-no-han e expulso do país, com os fulminantes ritos de castidade do marxismo kátaro implantado na República Popular da China. Mas isto também é outra historia,

O passaporte panamenho de Edi Simons pode ainda atestar que ele morou comigo no Brasil, na Tailândia, em Kuala Lumpur, e que andamos pelas Filipinas, na rota centenária do Galeão de Manila, pelo reino de Nepal, nos arredores de Katmandu, onde comprei umas estatuas obscenas da devassidão erótica do Buda, e onde escalamos o Everest, quer dizer, voamos sobre sua crista de neve imaculada, por cinqüenta dólares, no arriscado avião Antonof de um príncipe nepalês. Por ali nasceu seu avô, nas fronteiras himalaias entre o Tibet e a China, e ao fixar-se no Panamá trocou sue complicado sobrenome hindustânico pelo vago apelido de Simons. Das varanda nepalesa de madeira castanho-escuro do mosteiro do Primeiro Céu, perto do Palácio Real, antes do massacre que ali afogou num lago de sangue o Rei Birendra, sua rainha e sua corte. Foi um domicídio inédito na história, e dele se ocuparam rumorosamente os jornais do mundo inteiro. Mais do que isto: foi um horror, uma profanação e um sacrilégio, no país mais religioso do mundo, onde as pessoas moram nos templos e onde os deuses "sont chez eux" - "en su casa" - como me dizia um jornalista francês. Mais isto também é outra história.

Descobrimos juntos o reino de Sikhin, nos confins da Ásia. Vadiamos no Ceilão - Taprobana dos portugueses antigos, Sri Lanka hoje, dos fanáticos do fundamentalismo tamil e dos pequenos putos e putas de dez anos nas esquinas sórdidas e na calçada dos hotéis. Anoitecemos algumas vezes no barrio alegre de Kwalung, em Hong Kong, onde perdi 84 dólares na roleta de um duvidoso cassino da máfia chinesa. Dormimos num convento do século 16, dos jesuítas portugueses em Macau com um padre poliglota, tradutor do Pentateuco de Confúcio, que nos deu inauditas aulas de lingüística. Alojaram-me na cela em que costumava hospedar-se meu amigo, o historiador inglês Charles Boxer, a mesma em que viveu nos tempos quinhentistas meu parente, o padre João Mourão, preso e trucidado sob a acusação de haver convertido o príncipe herdeiro do Celeste Império, numa tenebrosa conspiração para ali instalar o "regime dos demônios estrangeiros, chamado cristianismo". Edi Simons bebeu, durante a noite, um litro de vinho de arroz de Sichuan, invocou o espírito do Padre João Mourão, e queria  porque queria que ele nos aparecesse no quarto. Não apareceu. Os mortos aparecem quando querem, e não quando os chamamos.

Depois disso, fomos hóspedes de luxo no Hotel Reffles, em Singapura, ocupando as mesmas suites em que estiveram Rudyard Kipling e Greta Garbo, segundo inscrições na parede esverdeada. Almoçamos ali um inesquecível hot-pot mongol de carne de bisonte de Huehot e tomamos, numa noite, dois litros e meio de uísque escossês, sentados nas cadeiras rotuladas do "Bar dos Milionários". Eu - lembro-me bem - na cadeira pouco honrosa de Sommerset Maugham, ele na de Ava Gardner, Joan Crawford, Aga Kahn ou Clark Gable, segundo a inspiração etílica de cada dia. Vimos a Indochina e a Cochinchina, os vietcongs mutilados, a biblioteca de pedra de Hanoi, as ruínas sagradas de Angkor e vagamos na antiga Saigon pelas ruas populosas de putas budistas, certamente as mais belas do mundo, flexíveis felinas douradas que acasalam como pombas celestes em seus beirais de seda.

Andamos semanas por Lisboa e Atenas, de onde ele foi um dia com Kristos Kleris[1], que além de grego, é lingüista e caldeu, para uma noite de salmos e vigílias no mosteiro dos santos do Monte Athos. Internou-se em bebedeiras memoráveis nas estâncias paradisíacas das Baleares, em companhia do poeta inglês Jonathan Boulting sob os olhos ofídicos e as pestanas alaranjadas do velho poeta Robert Graves. Perdeu-se nos purgatórios de Moscou, de onde alcançou Pequim em viagem de uma semana pelo trem da Transsiberiana, infestado de jovens contrabandistas soviéticos e polacos, entre prostitutas polacas e judias da Bielo-Rússia. Vagou pelo Paquistão, onde um cavalheiresco e compassivo diplomata brasileiro, emergido dos textos de Platão e de Kant, mergulhado, afinal, nos poços da filosofia budista, e contaminado pelo vício incurável da poesia, o salvou do vexame de dormir ao relento e de morrer de fome, pagando-lhe viagem e hospedagem no hotel de uma viúva islâmica em Bangladesh, cuja filha, apaixonada por seus versos o ensinou a tocar a cítara de três cordas, e o levou para uma vilegiatura na chácara que herdara do finado seu marido birmanês, a vinte quilômetros da cidade de Bakoku, na Birmânia meridional.

No Japão, começou a estudar japonês, com escasso êxito. Guardo seus cadernos deste aprendizado, a que também me arrisquei, mas nunca fui além de umas tankas e uns haikais antigos, que ainda sei de memória, ensinados por meu companheiro de prisão Yugo Kusakabe, e outros ensinados por minha bela amiga Yuko Kanji, com a graça de seus kimonos tradicionais e seus miúdos passos da dança antiga, o ou o kabudji, os olhos oblíquos brilhando sobre o leque de sândalo e seda. Mas isto também é outra história, apenas para contar que Edi Simons viveu em Tóquio, onde uma estudante japonesa lhe fez uma proposta não aceita de casamento, e onde sobreviveu com vagas prestações de serviço a uma agência de publicidade montada no Japão por um conterrâneo seu, um Fábrega do Panamá. Ali socorreu-se também com ajudas genereosas de meus amigos, Osvaldo Peralva correspondente no Japão do mesmo jornal que eu representava em Pequim, de sua Yuko Kanji e do diplomata Paulo Franco, cuja generosidade já o alcançara no Paquistão e o acompanhara de longe nos últimos tempos de Paris. Creio que de Paulo Franco foi a derradeira mensagem dirigida ao poeta - uma espécie de mensagem nuncupativa - enviada no mesmo dia em que chegara a Paris, e que era também o dia em que o corpo de destinatário já ardia no forno crematório, sem condições de atender ao convite para o almoço do amigo fiel. Os mortos não almoçam nem recebem convites. Mas Edi Simons, vivo ou morto, era capaz de tudo.

Tentou morar na Índia, terra do Dr. Simons, o médico hindu que era seu pai, e na China, como já disse, fomos parceiros de inauditos perigos noturnos. Sem falar nas peripécias periféricas pela América Central, de Honduras a Costa Rica, e de perigosas estripulias, em que houve mesmo um duelo a faca, nos obscuros bas fonds de Caracas ou Bogotá, talvez de Guayaquil. Sei ainda, por ouvir dizer, de suas aventuras em Nova York e de seus idílios no Canadá, nos confins de Vancouver, onde creio que andou com Alberto Cruz, e especialmente em Montreal e na velha cidade do Québec, onde conviveu com meu afetuoso amigo, o grande poeta Fernand Ouelette e seu inquieto grupo de escritores. Orgulhava-se, aliás, como eu mesmo, e como nosso amigo Robert Marteau, de ser um québecois honorário - título que nos foi dado por um querido e saudoso companheiro, o grande poeta Gaston Miron. Como ele, nunca tivemos outra pátria senão a língua que falamos antes der ser ensinados.

E não se pode esquecer suas cidades, Panamá e a velha Colón, onde nascera, onde vivera a infância e a adolescência, que ele amava e detestava furiosamente, mas onde habitava sempre, na memória fixa de sua mãe, meio espanhola, meio-índia. Foi célebre por sua beleza crioula, que a fizera raínha dos estrondosos carnavais panamenhos - o que ere, em seu país e em seu tempo, não uma ovação pitoresca e popular, mas a honraria mais alta do almanaque Gotha da gentry dionisíaca do Istmo. Ali voltaria de vez em quando. Uma vez, para dormir na grande cama rococó, de dossel alto, de uma senhora judia da incerta aristocracia panamenha. Outra vez, para escrever uma ode a um boxeur famoso, meu inesquecível companheiro numa acidentada viagem aérea de Nova York, ou Los Angeles à América Central, cantado e lembrado também por Jean Cocteau, em suas memórias e até em seu discurso de recepção na Academia Francesa que dele disse que era o Bach dos tablados de box. Esta ode a Al Brown foi editada no Panamá por um boliviano aficionado às boas letras, o jornalista René Capriles, hoje ancorado no Brasil como correspondente internacional. Mas parece que suas residências mais permanentes, além das vilegiaturas no Brasil e no Chile, às vezes em minhas casas do Rio e de Viña del Mar, ou na casa de Tunga e Cordélia no Rio, ou ainda na breve hospedagem do fidalgo mecenato de Càndido Mendes, num hotel da Avenida Atlântica, foram, na verdade, a enternecida memória do lar materno em sua Colón. E as casas de María Zambrano, na Suíça e na Espanha, espécies de gruta daquela ninfa egéria, onde era filho e pai, irmão e príncipe herdeiro da grande feiticeira. Tinha ainda moradas esporádicas na irreparável saudade da bela Sara Mena, mulher do arquiteto Pino Sánchez, da Cidade Aberta, junto a Viña del Mar, como também na doce lembrança de estadias bissextas no convívio e litúrgico com os encantos de musa de Nicole d'Amonville[2], em vilegiaturas de Ibiza ou de Barcelona, onde a bela condessa francesa, nascida em El Salvador, costuma viver, transformada em catalã. Foi ela, de deusas negras, que ali o teria introduzido na erudição e no mistério dos Cantos Sibilinos, que eu mesmo passei a cultivar em viola pobre, e em fervorosos bilhetes e telefonemas nas tardes bizantinas de Dora Ferreira da Silva, em seu jardim salvado da turbulenta Constantinopla paulistana.

Irresidente de muitas residências, na verdade esteve ancorado mesmo, demoradamente, até à morte, foi no fascínio dessa cidade rilkeana de Paris, aonde a gente vai menos para viver do que para morrer, segundo o poeta. Como tanto irresidentes do mundo, foi o íncola exemplar da geografia, das ruas, dos boulevards e do exílio no coração, no espírito e na cultura de Paris. Ali, fechou os olhos e desapareceu na nuvem de cinza de seus restos. Ali o contemplaram, agonizante, a bordo de sua beatitude final, alguns amigos comovidos e fiéis de seus últimos dias, como mei filho Gonçalo, a quem ele pediu, a voz já arquejante, no leito da agonia, que celebrasse sua "debilidade" (sic). Creio que entre as testemunhas de sua subida ao céu, estariam, de certo, alguns dos mortos que lhe vieram dar as boas-vindas em sua morada nova e definitiva. Eram os belos fantasmas de seu convívio de sempre: Augustín e Efraín Tomás Bó, Jorge Pérez Román com seus pincéis, talvez Enrico Zañartu com sua cortesia, Paulinho Ramos e o próprio Godo, ao lado de María Zambrano, e o séquito que iria de Homero a Virgílio, do Dante ao Leopardi, de Platão a Beaufret e Heidegger, de Cervantes a Rimbaud, de Baudelaire a Hoelderlin e outros. Um séquito bem maior que o dos vivos. Entre estes, até por falta de informação, apenas uns poucos: certamente, alguns cireneus de sua continuada viagem ao monte da morte, o arquiteto François Milou e sua Marie, anjos-da-guarda de seus tempos fatigados, como também a poeta Josée, certamente o querido pintor mexicano Guillermo Arizta, o filósofo François Fédier, os sumos poetas Michel Déguy e Robert Marteau, o arquiteto Ratzko e, quem sabe, por complacência lírica amigos intermitentemente desafetos, como Juan Pablo Iommi-Amunátegui e o compassivo lingüista grego Kristos Kleris (Christos Clairis). Creio que ali esteve também o poeta inglés Simon Lane, que o hospedava em seu fechado clube londrino e foi seu parceiro em rumoroso ato poético provocado na Bahia, em performance de Tunga e Arrtur Barrio. Alberto Cruz e Godofredo Iommi teriam feito isto se não estivessem em países distantes: Godo em sua recente sepultura, e Alberto em sua Escola de Valparaíso. mas, decerto estava lá meu filho Gonçalo, curador da edição de seu livro apócrifo e, como vimos, um de seus últimos visitantes no hospital de onde sailed out to eternity - como se diz de Dylan Thomas na placa sobre a porta do Chelsea, o hotel onde deixou de viver em Nova York. Mas isto também é outra história. Ou, como diz Abdias, é outro cantar. Até porque esta breve memória não é um catálogo dos amigos vivos e mortos de Edison Simons.

É não é. Pois se esta não é a história de Edi Simons, é, de certo, uma versão da história dos olhos do gato. E foi por ele que tomei conhecimento, pela primeira vez, da luz das pupilas dos gatos. Até então, com Abdias e Augustin, só nos surpreendiam os olhos dos gatos, mais exatamente das gatas, quando olhávamos para a beleza irrefragável, quase demoníaca, dos olhos de Salústia, na casa de Marieta, naquele tempo. Em suas pupilas de azinhavre, salpicadas de sardas douradas, podíamos ler os mais recônditos desejos eróticos provocados pela inesquecível rapariga de Lisboa, que dançava nos teatros do Rio. À luz ciumenta de seus olhos de gata moribunda, em pânico de amor, líamos as pernas, as coxas as virilhas e tudo mais, do corpo e da violada castidade da indizível Salústia. E ainda hoje, quando me lembro do furor dessa leituras remotas naquele corpo de querubina perdida, parece-me ver a luz dos olhos agatados -  de ágata e de gata - de Salústia, abrindo as pálpebras e as narinas sobre a cor de sua pele lunar, à luz dos olhos felinos, para a dislexia de sua pele e de seu rosto. Mas esta também não é a história de Salústia Limaverde, dita Salústia de Cintra.

Foi mais ou menos isto que disse a Edi Simons quando o surpreendi uma noite, lendo e escrevendo cartas no escuro, na pequena sala do apartamento que ocupávamos ao pé de Água Santa, no doce exílio de Viña del Mar. Preguntei-lhe por que não acendia o abat-jour. "Porque sei ler com os olhos dos gatos como Camões" - foi a resposta lacônica.

Mais tarde me informaria das referências históricas de Camões e do Tasso, agora repetidas no pequeno livro apócrifo com que se preparou para morrer. Creio que me contou a história . ou a lenda (dá no mesmo) - de uns papiros antigos, ou uns pergaminhos em rolos, que continham a escritura de um livro denominado "Os olhos do gato". Sua autoria é duvidosa e sua origem obscura. Um dos setenta - ou setenta - ou setenta e dois - rabinos de Alexandria, Amós Abravanel, remoto avó do sábio judeu português Judas Abravanel, nascido em 1455, que se tornou conhecido sob o nome de León Hebreo, com seus famosos Diálogos de Amor, andou farejando os texto platônicos de Gemistos Plethon, que levaram Cosme de Médicis a fundar a Academia Florentina e que suscitaram a primeira contestação e o primeiro confronto conseqüente de Platão contra Aristóteles. Quando se ocupava com a famosa tradução da Bíblia, cerca de 200 anos antes de Cristo, chamada dos Septuaginta,  o rabino Amós descobriu, no fundo de uma sinagoga alexandrina, um códice podre de velho, com texto caoticamente trilíngüe, composto de fragmentos gregos, hebraicos e babilônicos, que trazia em todas as páginas uma indicação, também trilíngüe: - "Os olhos do gato".

O alfarrábio, que teria chegado à Itália tempo depois, entre os Trezentos e os Quatrocentos, pelas mãos do filósofo bizantino Gemistos Plethon, foi manuseado em segredo por três ou quatro membros da Academia Florentina, e dele dão velada e enigmática notícia Marsílio Ficino, o cardeal Bessarion e quase explicitamente Pico della Mirandola. Seus clandestinos leitores descobriram que o livro era uma espécie de chave miraculosa para o conhecimento de todas as verdades escritas ou pensadas em qualquer tempo. Suas letras, suas sílabas, suas palavras, ao simples sopro do desejo humano de saber, se ordenavam subitamente e se juntavam, numa sintaxe elementar, iluminadas por uma luz esverdeada. Podiam , como os caracteres chineses, os hieróglifos e as letras cuneiformes dos assírios, ser lida em qualquer língua, pois a luz mágica soletrava todas as dislexias. As palavras se moviam como os digogramas - representação gráfica da linguagem naútica - em que a intensidade da força magnética manifesta a qualquer um o rumo indicado pelas agulhas de bordo.


O livro causou aos poucos iniciados que o leram um verdadeiro orgasmo de alegria - aquele gaudium cum veritate, o gozo infinito com a verdade, referido por Santo Agostinho, que talvez o tenha visto na biblioteca de Ambrósio. O platonismo agostiniano deve ter se originado à luz do livro mágico. Sua influência é óbvia sobre a obra de Pico della Mirandola, quando enuncia uma combinação de pensamento platônico com as idéias cabalísticas, chegando à formulação de uma doutrina capaz de descobrir o único Deus verdadeiro em todas as religiões e em todas as filosofias.

O texto espantoso foi escondido, talvez destruído, pelos acadêmicos aterrorizados. As academias sempre têm medo da verdade e da sabedoria, até porque vivem habitualmente da impostura e da ignorância fulgurante de seus membros, a qual não tem nada a ver com a douta ignorância de Nicoláu de Cusa. Além disso, o livro dos olhos do gato, encontrado pelo rabino de Alexandria, foi logo incluído no rol dos malditos. Os judeus helenizados batizaram o conjunto de seus livros sagrados com o nome de "Bíblia", isto é, os livros, chamando também as Escrituras do Velho Testamento de Biblioteca, isto é, os livros que devem ser guardados.

O rabino Amós Abravanel teve algumas dificuldades com a Sinagoga. No princípio ele considerava que "Os Olhos do Gato" eram um texto do Livro dos Reis, dos Paralipômenos, talvez dos Macabeus, e quis incluí-lo na Bíblia Sagrada. O Supremo Conselho da Sinagoga declarou o livro herético e intruso e proibiu sua tradução. A Igreja cristã faria o mesmo no século da Academia Florentina, e o frade Savonarola que o andou lendo e divulgando sua existência na biblioteca de um monge toscano, foragido em Veneza, foi condenado e queimado em 1498 por suas idéias platônicas. Visitei a cela no alto do palazzo Vecchio, em Florença, onde Savonarola esteve encarcerado, e de onde saiu para o fogo matador. Com uma nota de vinte dólares, consegui que o guarda me abrisse a porta da prisão e ali me deixasse meditando uns bons quarenta minutos. Não professo a fé nem a prática da invocação dos mortos. Eles não aparecem. Mas nos quarenta minutos em que fiquei na cela de pedra, cochilei e adormeci. Não sei - nunca se sabe - quantos minutos ou quantos segundos duram, por mais longos ou mais curtos que pareçam, o sono e o sonho. O certo é que vi o frade levantar-se de um canto da parede e me dizer claramente: "o livro que estava em Florença foi queimado na mesma fogueira em que me queimaram. Mas havia outras cópias no mundo". Tive a impressão de ouvir o barulho de correntes arrastadas e Savonarola se retirando com as galés malditas nos tornozelos. Mas era o guarda que batia nas grades de ferro com a chave de palmo e meio, avisando que eu devia sair. Entre as muitas coisas que aprendi com Edi Simons estava uma lição que lhe ensinara Maria Zambrano: é em sonhos que os mortos se comunicam com os vivos. Não havia dúvida: o frade assado na fogueira florentina me advertira da possível existência de alguma cópia do livro sobre os olhos do gato, ou talvez de alguma de suas versões. Interroguei em vão o panamenho. Não totalmente em vão. Pois fiquei sabendo por ele que nenhum dos iniciados na leitura de "Os Olhos do Gato" tem poderes para dar acesso a seus textos a uma outra pessoa. Encontrar o misterioso pergaminho é uma graça  - ex opere operato ou ex opere operantis - como entedendam os teólogos - concedida pelos deuses ou pelo destino para o privilégio do encontro com essas escrituras perigosas. O privilégio - ou o risco - pois, ao que se sabe, algumas pessoas não sobreviveram ao orgasmo de sua leitura.

Não vamos entrar na história nem na mitologia dos sonhos. Mas os que conhecem o texto de Vasari sobre a vida do Dante hão de lembrar-se que os Cantos finais de Paradiso não foram encontrados depois da morte do poeta. O Conde Guido Novello, sobrinho de Francesca di Rimini e o Príncipe Can Grande della Scala, a quem ele dedicara o terceiro Canto inacabado da Divina Commedia, e que foram seus protetores quando a miséria o rondou em dias de indigência cruel, tentaram descobrir o paradeiro dos fragmentos perdidos. Seus esforços foram inúteis. Uma noite, o própio Dante apareceu em sonho aos filhos Jacopo e Giuseppe, que viviam na mesma casa em que o poeta morrera em Ravena, no século XIV, em 1321. Estava cercadode luzes fulgurantes e coroado de estrelas, e elhes deu uma ordem: derrubassem certa parede da casa, onde ele havia metido, num oco aberto com a ajuda de um pedreiro, os Cantos Finais do Paraíso, e entregassem ao Conde di Novello ou ao Príncipe Can Grande. Foi assim que apareceram e se salvaram os mais luminosos tercetos do poema, o que confirma, mais uma vez, a sabedoria de Maria Zambrano: é através de sonhos que os mortos se comunicam com os vivos.

Em 1329, um imbecil fanático, o Cardeal Bertrand du Poyet, deu ordem para que fossem queimados os ossos do poeta e seus escritos. O Cardeal era Legado do Papa João XXII ou do Anti-papa Nicolau V, mais provavelmente do primeiro, que era Papa de Avignon e francês como ele. Chegara aos seus ouvidos que se havia  encontrado, enterrado numa parede, entre os papéis do poeta, um livro diabólico, chamado Os Olhos do Gato. e que Dante Alighieri tinha sido um herege e praticante de bruxarias. Como não o queimaram vivo, era necessário que o queimassem depois de morto. Os ossos do poeta correram grave risco, e só o poder de seus amigos de Ravena conseguiu burlar a ordem do Cardeal-Legado. Mas muita gente continuou acreditando que aquelas notícias do Inferno, do Purgatório e do Paraíso chegaram ao endemoniado florentino por artes de Satanás. Já em vida do Dante, que era moreno bem escrup, as damas de Ravena tinham medo de aproximar.se dele, e diziam que a cor de sua pele se devia às chamas do inferno que o chamuscaram, quando ele por lá transitara, segundo seus próprios versos. Era por isso, talvez, que em seu longo exílio não conseguia o convívio das mulheres da sociedade, e era levado, como lembra Papini, um de seus mais fiéis biógrafos, a procurar as casas de prostituta, as chamadas "casas dos lugares altos" de Ravena. No Antigo Testamento também se chamam de "lugares altos" as casas dos venerandos prostíbulos judaicos, onde às vezes os próprios profetas de Deus, como Baruch, e creio que também Oséas, encontravam refúgio e deleite. Mas isto é outra história, até porque ninguém sabe o destino que teve o possível exemplar onde se teriam iluminado as visões do poeta sagrado.

Mesmo assim, vale la pena lembrar que o Dante fez questão de contar que seu guia no turismo patético pelos três mundos da eternidade foi nada menos do que o poeta Virgílio, suspeito até hoje, desde os tempos de Augusto, de comunicações mágicas com o sobrenatural para a escritura de seus hexâmetros. Os próprios cristãos sempre tiveram uma de suas éclogas como uma profecia revelada por Deus sobre o nascimento de Jesus, e padres, bispos e doutores, especialmente na Idade Media, lhe erigiram altares em catedrais católicas, onde o poeta pagão era venerado como santo, com sagradas imagens de mármore cercadas de velas acesas e cânticos piedosos. Edi Simons o tinha como santo canonizado e lhe dedicava fervorosa devoção, o que já é um forte indício de que Publius Virgílius Maro tenha pertencido à máfia sagrada dos leitores do livro dos olhos do gato. Seu amigo o poeta Horácio, também é suspeito. Não é difícil que tenha sido também um iniciado. Os dois sofriam, respectivamente, de asma e de uma oftalmite que deixava os olhos sempre, nos banquetes de César Augusto, com um deles à direita e o outro à esquerda, explicava seu bom gosto: "sento-me entre as lágrimas e os suspiros". O fluxo lacrimal contínuo e a respiração ansiosa são sintomas típicos de pessoas que lêem longamente à noite, às escondidas e contra a luz natural.

O livro iniciático dos olhos do gato não é um privilégio dos poetas. O oficiais do oficio da beleza, qualquer que ele seja - a música, a pintura, a escultura, a dança, as matemáticas abstratas e assim por diante - visitaram aqui e ali o texto anakalyptikos, com sua escritura semiótica dos fantasmas daquilo que os gregos, desde Parmênides, chamavam aletheia e que o filósofo Jean Beaufret, talvez o mais eficaz dos professores de Edi Simons, denominava "le grand ouvert" - a verdade prismática, ou a verdade panorâmica, talvez a verdade infinita, aquela que até podemos tatear, mas que nunca será apalpada em todas suas partes por nossa pobre raça planetária, e que nunca acabaremos de tocar: The unfinished touch da última meditação do poeta Edi Simons.

Há indícios da existência de um exemplar do livro dos olhos do gato na Abadía de Port Royal, que teria sido confiscado por um Conde da Bretanha, numa escaramuça das Cruzadas, no tempo de São Luís rei, e que o arrebatara como butim, junto com uma espada maometana de bainha de ouro e copos lavrados, de ouro e prata, cravejados de rubis de Ophir, encontrada sobre uns panos de damasco na tenda de um príncipe do Islam. O Conde se interessava pela espada. O livro o impressionara apenas pelo precioso marroquim vermelho da capa, com arabescos coloridos, a lobada em couro rosa e as iluminuras abstratas vivas como um arco-iris sobre as folhas de borrego do texto, finas como pétalas de rosa-chá. Temendo que fosse um exemplar do Corão, leitura proibida aos cristão, entregou a perigosa escritura a um parente, sobrinho do Barão de Joinville, sobre cuja dramática figura humana escreveu Péguy memórias comovedoras. O sobrinho do Barão, depois das Cruzada deixou as armas, foi viver num mosteiro, o libro passou de monge em monge, e acabou na Abadia de Port Royal. Blaise Pascal foi ali um dia surpreendido lendo um livro no escuro. O venerando Prior o interpelou e o socorreu  com um castiçal e três velas acesas. Pascal apagou as velas e disse: trop de clarté obscurcit. O excesso de claridade escurece. Edi Simons guardou em seu último livro a frase do sábio. E observava: ele estava lendo os olhos do gato. Foi depois desta leitura que formulou o chamado teorema de Pascal, escreveu o Ensaio sobre as cônicas, e o Tratado sobre o vazio. Depois das Lettres de Louis e Montalte, as chamadas Cartas Provinciais, com as quais os doutores de Port Royal caíram em desgraça junto aos tribunais da Igreja, o mosteiro e suas doutrinas foram vasculhados por um procurador da Fé, o livro dos olhos do gato desapareceu, e nunca mais Blaise Pascal ousou escrever sobre enigmas matemáticos, mergulhando na redação de ambigüidades dos Pensamentos - Pensées - e erigindo a dúvida como sabedoria suprema, a ponto de dizer que não podia compreender senão aqueles que tomavam o partido de buscar incessantemente a verdade. Os que pensam tê-la encontrado, são vítimas de um equívoco ou agentes de uma impostura. Sem o livro dos olhos de gato, não lhe restava mais do que "chercher en gémissant", segundo sua própria expressão, que serviria de epígrafe a todos os livros do mais atormentado de nossos romancistas - meu santo e endemoniado amigo Octavio de Faria.

Depois de Pascal, o único filósofo propriamente dito na história do pensamento francês - outros são apenas comentaristas da filosofia grega ou da filosofia alemã - foi Descartes, no século XVII. Toda a filosofia de René Descartes se funda na famosa chave do Discurso do Método o "cogito, ergo sum", que expressa a irremediável perdição do homem no reino da dúvida. A  partir daí, ele anuncia a presença daquilo a que chama de malin génie - um gênio maligno, que administra a hipótese da dúvida inesgotável que separa o homem da verdade. E isto, a tal ponto que só se pode chegar ao pensamento através da dúvida: - duvido, logo penso . chave da chave cartesiana penso, logo existo. Assim, quem não pensa, logo não existe.
A exacerbação cartesiana da dúvida, marco fundamental do pensamento e da existência, levou Descartes a questionar até mesmo a possibilidade das verdades matemáticas, pois sempre poderia surgir o latens anguis - a serpente oculta da dúvida nas dobras da prova-das-nove das mais elementares demostrações matemáticas. A matemática, de resto, passou a ser a ciência ou arte da dúvida, a partir das contas refratárias dos algarismos, descobertas por Boole. Boole, um irlandês louco, diz que sua ciência veio reformular tudo, desde a matemática de Euclides. A matemática de Boole pela qual nem sempre dois e dois são quatro, está fundada, segundo ele mesmo explica, sobre alguns versos de Homero. Por ela se chegou à teoria dos quanta de Max Plank, depois a Einstein, como a teoria da relatividade, e hoje à teoria da indeterminabilidade de Heisenberg. E quem sabe a que novas dúvidas chegaremos. Mas isto também é outra história, uma história complicada, apenas para dizer que Descartes criou o método da dúvida permanente, formalizando um discurso que já estava inserido na sabedoria de todos os filósofos.
Godofredo Iommi ou Alberto Cruz - um dos dois - abriu um dia um curso de matemática de Boole, regido por um padre húngaro, no Instituto que feqüentavamos na Escola de Arquitetura da Universidade Católica de Valparaíso. Não cheguei a aproveitar das aulas do padre húngaro que, aliás, depois de algum tempo, passou a duvidar de sua própria condição de clérigo, e pendurou a batina num cabide feminino da cidade. Mas Edi Simons andou ouvindo algumas lições, entusiasmado pela possibilidade de uma ciência matemática geneticamente poética, brotada dos dactilos de Homero. Foi então que teve um inesperado encontro com Descartes. Descobriu um passagem de memória do filósofo, em que ele conta que encontrou certa vez, em sua barraca de campanha, um velho livro sem data ali deixado por um oficial alemão, no tempo em que servia como soldado no exército de Mauricio de Nassau, em 1617. À primeira vista, apenas tocou no livro, e logo o abandonou, ao verificar que estava escrito numa língua que não conhecia. Deixou o volume aberto sobre a pequena mesa, apagou a lanterna, e adormeceu sobre ele, pensando em certos cálculos matemáticos que o ocupavam. Pela manhã, despertou e, como se tomasse nota de um sonho, escreveu as três leis fundamentais da reflexão e da retração ótica que levam seu nome, riscou instintivamente uns rabiscos, nos quais apareciam simplificadas notações algébricas da equação =0, com os quais criou a geometria analítica e a base da matemática aplicada aos fenômenos físicos. Desconfiou que talvez tivesse lido esses números e sinais na página sobre as quais adormecera e que o sonho fosse um prolongamento dessa leitura. Mas lembrou-se de que não podia ter lido, pois apagara a luz na ocasião. Interpelou o tenente alemão que já ia saindo da barraca, com o misterioso livro na mochila. O tenente riu, e perguntou-lhe se não tinha visto um gato.
Edi Simons me contou a história e concluiu: eram os olhos do gato. Falie com Godo Iommi a respeito do caso e lembrei-lhe que o poeta andava naquele tempo escrevendo, com empenhada sinceridade, uma defesa da mentira. Godo, que era grande entendido de Descartes, desconversou sobre os olhos do gato, mas informou: o filósofo realmente conta que chegou a suas equações fundamentais durante um sonho. Sobre os olhos dos gatos, tergiversou, balbuciando em voz baixa um velho lugar comum da cena shakespeareana do diálogo de Hamlet com Horácio: there are many things... Não fiquei sabendo nada de concreto a não ser isto: que ele e Edi Simons sabiam de muita coisa entre o céu e a terra, ignoradas por nossa vã sabedoria. E o livro dos olhos do gato era uma delas.

Quando menos se esperava, o poeta começou a pintar. A final, talvez todo poeta seja, no fundo, um pintor virtual. E ele repetia sempre que ut pictura poies. Se a poesia é como a pintura, também a pintura deve ser como a poesia. Diante da cores inesperadas, de matizes nunca vistos na natureza à luz dos olhos humanos, trazidos por certos pintores, parece que eles têm outro tipo de retinas e pupilas: - uns olhos de gato ou de anjo. Na mitologia, sabemos que Palas Atinaia - Minerva para os romanos - enxergava as naus inimigas, do alto do Panteon, com os olhos de uma coruja.

A pintura, como a poesia, a cocaína, o amor e o vinho é um vício, contagioso como todos os vícios, Parece que os contágios mais perigosos, que levaram Edi Simons ao vício de pintar, vêm de suas ligações como Jorge Pérez-Román e com Guillermo Arizta, talvez com as cores desvairadas de Pancho Méndez, contando também a infecção da castidade plástica de Enrico Zañartu e as artesanias de Sheila Hicks, que o conduziram a certos caprichos miniaturais, o que não é pouca coisa. É bom lembrar que o título Illuminations, dado por Jean-Arthur, digo Rimbaud, à sua poesia, não corresponde à palavra francesa traduzida por Iluminações ou Iluminaciones, em português e espanhol. É uma palavra inglesa, que se deve traduzir por Iluminuras, (Illumêichons) essas maravilhosas e minúsculas pinturas coloridas em que foram mestres os persas, os bizantinos, os turcos e os monges da Idade
Média que ilustravam a maravilha dos Missais e dos Livros de Horas. O pintor Edi Simons foi também contaminado, na aventura das artes plásticas, por uma dialéctica em que o seduziram, de certa forma, as invenções plásticas gigantescas e esculturais, herança de Michelangelo, presentes na obra e na concepção de volumes de Claudio Girola, de Tunga, dos arquitetos chilenos Alberto Cruz, Fabio Cruz, Pepe Vial, Tuto Baeza e sobretudo Miguel Eyquem. E também de Marino di Teana, quando visitamos com Michel Déguy, Godofredo Iommi, François Fédier e creio que Bellefroid e Jean Beaufret, em 1964, no belo moulin de Chantilly, onde estava seu atelier.
Por todas essas referências passam os olhos do gato. Em carta que me escrevia em junho de 2000, o inesperado pintor gerado dentro do poeta, me dizia: "arte no, lo que pinto, sino una red de presagios, de signos y de cifras".

Outro inesperado invasor do mundo das formas e das cores, o múltiplo habitante do sonho Abdías Nascimento, profeta e herói de todas as profecias e todos os heroísmos, depois de uma exposição em Paris de seus gigantescos painéis de deuses africanos, também me dizia: "não é pintura; são signos que vejo no fundo de minhas origens". É, por isto mesmo, o mais original dos pintores. Pois Goethe, ao advertir que o artistas tem de ser original, explicava: "original é o que brota das origens". Edi Simons sabia que para ver as origens é preciso olhar como os olhos do gato. Não sei se pintava no escuro. Sei que Abdías Nascimento, ocupado com sua dramaturgia e demiurgia africana, encontrou um dia em Lagos ou Ilé-Ifé, na Nigéria, por onde andava, um velho livro em couro de cabra, num vendedor de bugigangas no meio da rua, escrito numa caligrafia que podia ser a dos coptas do Nilo meridional, no Egito, ou dos coptas da Etiópia, com um alfabeto semelhante ao das preciosas cartas do Preste João, rei e pontífice de seu tempo, aos reis de Portugal. Abriu o livro, sem entender nada, percorreu suas páginas enigmáticas, e de repente tomou uns pincéis e umas telas, e começou a pintar. Era guiado, sem saber, pelos olhos do gato.
Pouco depois, em Los Angeles, deu o livro de presente ao nosso mestre Alberto Guerreiro Ramos, professor e doutor maior da Universidade do Sul da Califórnia. Guerreiro abriu o livro e deu-se conta, imediatamente, de que tinha nas mãos uma versão africana do Livro dos Olhos do Gato. Perturbou-se até o fundo da alma, entrou em agonia e morreu. Antes de morrer, assinou um documento fazendo a doação de sua preciosa biblioteca particular à Southern Califórnia University, onde era full professor no Departamento de Doutorado. Não levou totalmente o segredo para o túmulo, pois deixou um bilhete lacônico e enigmático: se a biblioteca resolvesse desfazer-se em qualquer tempo de seus livros doados, podia fazê-lo livremente, Mas o pequeno livro em couro de cabra, oferecido por Abdias, só podia ser emprestado, doado ou vendido a algum centro de estudos da África.
Anos depois, um estudante argelino da Southern University tomou conhecimento desta disposição, vasculhou os fichários e prateleiras da Guerreiro Ramos Library, localizou o volume e fêz uma comunicação à Universidade de Constantina, na Algéria. O governo muçulmano de Argel, promoveu, na entrada do milênio, neste ano de 2001, grandes comemorações para celebrar as festas centenárias de Santo Agostinho, africano de raça berbere. Proclamou herói nacional dos povos da África o fundador a sabedoria religiosa da Igreja Católica de Roma, como outros africanos, o primeiro monge do crsitianismo, Santo Antão, Paulo de Tebas e o próprio Atanásio, redator do Credo, e requereu ao Presidente dos Estados Unidos, a devolução do pequeno livro perdido nas estantes da Universidade em Los Angeles. Pela primeira vez na história, um governo islâmico, passando por cima das Cruzadas e da ortodoxia do Corão, homenageia e celebra um hierarca do Cristianismo, honrando a cidadania africana do moreno doutor berbere Santo Agostinho. Parece que os olhos do gato reconhecem a sabedoria do mestre comum dos filhos de deus sobre a terra, erigindo em verdade universal o platonismo cabalista de Pico della Mirandola. Mas isto também é outra história.

É e não é. Pois parece que a adesão do poeta Edi Simons à tribo dos pintores foi uma espécie de confissão de fé na ordem monástica dos iniciados na leitura dos olhos do gato. Ele mesmo me lembrava em uma de suas cartas que André Malraux, em seu livro La tête d'obsidienne, definiu como natureza original de seu amigo Pablo Picasso . a feitiçaria. "Ele era um chamã" - dizia Malraux, que conhecia a intimidade do pintor e de sua pintura. Edi concluía, dizendo que entre a arte e a magia, ficava com a magia.
Eu mesmo conheci um pintor, sabedor excelso de todas as coisas de seu oficio, chamado Nélson Nóbrega, que viveu 99 anos, pintando dia e noite, como sua refinada mulher Lúcia, também pintora, num velho apartamento do centro da Babilônia paulistana, que parecia uma caverna de Ali Babá de quadros, tintas e pincéis. A idade já lhe enevoara os olhos para a contemplação das coisas. Mas continuava pintando e vendo o invisível. Não sei, na história da pintura de todos os tempos, de alguém que melhor tenha conhecido o mundo infinito das cores e das formas. Dele aprendi que havia as formas concretas e as formas abstratas, as cores concretas e as cores abstratas. Havia um número infinito de formas, no começo e no fim, como ensinava Parmênides. O conhecimento real e surreal do mundo começou com os pre-socráticos. Eles inventaram o mundo sphairico e enriqueceram as dimensões lineares do mundo dískico do Egito, da Ásia Menor, dos judeus, dos persas e do Oriente extremo. Vem de Parmênides a existência de um número infinito de cores e uma só cor verdadeira - o cinza, pois o cinza está em toda as cores, e todas as cores são o cinza, no começo e no fim. De repente, aos meus próprios olhos fatigados, dirimiu-se e iluminou-se a certeza científica das três leis de Descartes, sobre a reflexão e a retração da luz. O pintor paulista, ancião de olhos de gato, ao revelar, ainda jovem, a seqüência e con-seqüência cromática da forma esférica dos corpos  enunciada por Parmênides, fez, na verdade, a descoberta do cinza, gerado e não fabricado, que procede de cada uma das cores elementares e está presente em todas elas. É uma descoberta tão importante como a do teorema de Pascal e das leis de Descartes, que são, aliás, o ponto de partida para a lei das cores, sobre a qual divagou Goethe, que começa e acaba na silenciosa reinação do cinza.

O texto do livro dos olhos do gato está escrito em caracteres soltos, e sua unidades só consegue ser lida quando o sopro da vontade criadora do leitor move e ordena cada um deles para a composição sintática da escritura. Mais ou menos como na partitura da sonata: todas as notas da escala musical estão residentes nas cordas da viola sábia e do piano virtuoso ou nos furos da flauta eólia e no fole do órgão tempestuoso. Mas só os dedos ou o pulmão do artista sabem ensinar aos instrumentos virtuais a arrumação compósita dos sons para o rimo e a melodia. Não é diferente o labor elementar da pintura, feita de fragmentos ordenados e ajuntados de formas e cores, como a poesia feita de fragmentos de sílabas e palavras, e a música de fragmentos e sons. A obra inteira de um poeta, de um músico, de um pintor é um "échantillon", um "patchwork" de fragmentos. Por isto, os poetas, os músicos e os pintores se repetem, não "ad nauseam", mas "ad orgasmum" - até o orgasmo - atravessando a espessura dos tempos, vestíbulo da eternidade, para que se veja o "carmen pulcherrimum" da visão platônica dos olhos do gato de Santo Agostinho - a beleza da ordem dos séculos.

Este era o entendimento de Edi Simons, poeta absoluto, que produzia, numa das últimas cartas que dele recebi, o exemplo de Picasso, segundo ele "un Proteo que saltamonteaba de una forma a otra, en una aparente dispersión, en un caos." Pois o próprio Pablo Picasso dizia, como sabedor medular da coisa do pintor, que era preciso que se passassem vários séculos antes de se lograr conhecer a unidade de sua obra. Ao pintor e ao poeta - insistia o próprio Edi . não interesssa a abstração nem a figura, mas a irradação mágica de uma intensidade que unirá, em algum momento, os fragmentos vivos. "Isto - diz ele - aprendi contemplando as invenções de Gullermo Arizta".

Na mesma pauta, lembra a sabedoria mágica de Jorge Pérez-Román: o artista não precisa do fio de Ariadne. Jorge desdenhou todos os caminhos trilhados. Produziu a regência de seus próprios passos. Não era abstracto nem figurativo, nem se deixou seduzir pelos fantasmas da modernidade. Ele era ele. Como o Deus do Sinai disse de si mesmo: Eu sou quem sou. Voltando ao que aqui foi dito acima sobre Abdias - vale a pena repetir a lição de Unamuno, segundo a qual "ser original é pertencer a uma origem". Jorge Pérez-Roman, em cuja casa da banlieue de Paris passei alguma das horas mais intensas e inesquecíveis de contemplação da beleza, ao lado de um padre francês, um voyant e teólogo da Ordem Salvatoriana, sabia disto. Era um ser emergido da cor e submergido na cor. A cor era, pois, sua origem de animal que pintava. Maria Zambrano lembrava que "a cor é o deus carnal". Por isso Goya dizia que não buscava as cores na realidade exterior: tirava-as de dentro de si mesmo.

Alguns dias de saudosas manhãs  de Paris . Edi o faria durante um par de anos - acompanhei Jorge ao Louvre, para aprender como ele, como diante de uma Infanta rosa de Velásquez, que o essencial numa pintura não é o que se mostra, mas o que se oculta. Para isto, é preciso de-compor as cores, como Rimbaud de-compôs as vogais e Wagner decompôs a origem da música nos primeiros acordes do "Ring". Assim Velázquez de-compôs o tempo e o espaço, por exemplo, no claro enigma do retrato das Meninas, vistas não num certo lugar ou num certo dia, mas no trasfondo de uma atmosfera.

Se estas observações ou memórias parecerem originais, não será porque resultem daquela brilhante retórica especulativa com que alguns escritores melhores sabem lapidar a frase, com a chamada "palavra in-esperada." Estamos aqui passeando pelas origens de Edi Simons, poeta absoluto. Parece que a leitura bruxa à luz dos olhos do gato foi o início de sua aventura poética, antes mesmo de ter acesso às cabalas do livro dos olhos o gato, onde Gerard Manley Hopkins descobriu a visão do in-scape e do land-scape.

Os que se habituaram ao conhecimento da sabedoria grega atribuem ao Livro dos Olhos de Gato uma autoria vária e polivalente. Foi por ele que o piloto Thamos se informou da última agonia dos deuses antigos e soube do nascimento de um Menino em Belém, ao ouvir, na tempestade do mar da Grécia, a voz dos ventos que anunciavam a morte do Grande Pã. Ao chegar a terra, um deolado sacerdote de Apolo pôs em suas mãos um exemplar do livro mágico, o primeiro a ser escrito no mundo depois da invenção do alfabeto por Linos - para uns, filho de Melpômene como Apolo, para outros com Orfeu, o que é menos provável, segundo minhas próprias investigações nas frondosas árvores genealógicas das familias e das sagradas bastardias olímpicas. Há também quem o diga filho de Diônisos, hipótese pouco provável, por motivos óbvios que pude verificar, com a ajuda de Homero e sobretudo de Hesíodo, sabedor dos segredos de alcova das meninas volúveis nas noites eróticas do Parnaso e do Olimpo. Mas isto também é outra história, apenas para dizer que os calígrafos da corte de Pisístrato, quando começaram a copiar os cantos da literatura ágrafa da mnemônica de Homero, encontraram um livro imemorial, chamado Os Olhos do Gato, vindo da Ásia Menor ou do norte da África, atribuído pelos sacerdotes de Tebas a Apolo, ou Orfeu, ou ainda a Linos, primeiro poeta a riscar letras sobre couros. Mais tarde, uns rabinos digressivos que escaparam do cativeiro da Babilônia , comparando os caracteres ao letreiro escrito a fogo nas paredes do festim de Baltazar na grande orgia babilônica, indicavam seus profetas como autores do livro, atribuído sobretudo a Daniel. Alguns queriam que fosse de Aarão, por ser um livro sacerdotal, outros do próprio Moisés, que teria aprendido letras antes de Linos, ao receber de Jeová as tábuas da lei escrita. Mas esta é uma discussão vã, pois são inseguras as averiguações que poderiam fixar as idades do filho de Melpômene e do legislador dos judeus.

Jules Janin, e creio que também La Bruyère, embora nada conste sobre o assunto no livro fabuloso de Marco Polo, guiados por referências do Padre Ricci e de uns padres portugueses que dão notícias do Tibet e da Mongólia nos Quatrocentos, falam de bibliófilos chineses que possuíam manuscritos em scroll de papel de arroz, melhor que os papiros egípcios, alguns pendurados perpendicularmente na parede, outros montados numa engenhoca rotativa, que formavam um livro, lido por Confúcio na juventude, e que se chamava Os olhos do gato. Interroguei o minucioso sinólogo Padre Joaquim Angélico. A única coisa que ele sabia era que o medíocre sinólogo Fennolosa, que conhecia chinês de oitiva, tinha uns fragmentos de scroll, que sua viúva passou ao poeta Ezra Pound em Londres, por alumas patacas ou guinéus ingleses, e que tratava dos olhos do gato. Desses fragmentos, com seus belos caracteres em nankin, o poeta transfigurou a língua chinesa, transfigurou seus imortais Cantares e até alumiou a obscura memória do piedoso missionário anglicano Fennolosa. Tudo isto é possível. São hipóteses - o que não é pouca coisa - pois a própria criação do Universo repousa sobre hipóteses, como a de Laplace, e a ciência mais avançada se funda sobre teorias, isto é, hipóteses, como a de Max Planck, a de Einstein, a de Pascal, a de Heisenberg e assim por diante.

O que parece certe é que não sabemos quase nada dos antigos depósitos de livros, egípcios ou assirios. Mas é fora de dúvida que havia um livro mágico na grande Biblioteca de Alexandria projetada por Ptolomeu IIº. Foi ele que tomou a providência de proibir a exportação do papiro egípcio, para proteger a indústria livreira do país e sua biblioteca, e impedir que o rei de Pérgamo levasse a cabo o projeto de fazer em sua cidade um museu de livros maior que o de Alexandria. Graça a esta competição, os de Pérgamo chegaram à invenção do pergaminho, folhas para escrita de peles de ovelhas de Pérgamo. Mas isto é outra história.

Para não perder tempo com a história das bibliotecas de todos os séculos, assunto sobre o qual divaguei eu mesmo, em breve ensaio sobre o texto da conferência De Biblioteca, que recebi da Itália, de Umberto Eco, um escritor dado a divertimentos eruditos, parece fundamental, para esta memória de Edi Simons, referir aqui um dado conhecido sobre a Biblioteca de Alexandria. Conta-se que Júlio César ficou sabendo, uma noite, pela rainha Cleópatra, de um livro mágico existente no instituto famoso. Dois dias depois, a rainha lhe oferecia, num estojo de ouro e marfim, o livro precioso. César imaginou logo que a Biblioteca de Alexandria era uma prodigiosa mina de tesouros da sabedoria humana, e armou o projeto de transferi-la para Roma, como já fizera Paulo Emílio, ao levar como butim a da Macedônia, a Cipião, o Africano, que carregou para o Capitólio a biblioteca de Cartago. O punhal de Brutus matou o grande Caio Júlio antes do tempo, mas seu amigo Caius Asinius Pólion, fiel ao projeto cultural do fundador do império, promoveu a criação de uma grande biblioteca romana, inaugurada no Atrium Libertatis, sobretudo com o butim de guerra arrebatado aos partos, no ano de 39 A.C. Vieram outras depois, especialmente a Biblioteca de Augusto. Mas no Atrium Libertatis, ornado com móveis, estátuas, medalhões e inscrições de poetas, ficaram os livros mais preciosos. Entre eles, os papiros guardados no cofre de ouro e marfim de Cléopatra, com o Livro dos Olhos de Gato, A biblioteca teve sorte vária e seus livros passaram de mão em mão. O presente de Cleópatra foi para na Biblioteca Vaticana, onde o encontrou o sábio e austero Papa holandês Adriano VI, que reinou de 1522 a 1523, antigo preceptor de Carlo de Gand, filho de Joana, a Louca, de Espanha, que seria Imperador do Sacro Império com o nome de Carlos V. O Papa mandou o livro de presente a Carlos V, mais como uma jóia do que como um livro. Foi como uma jóia que o guardou o Imperador. Extraído de sua caixa de ouro, que passou ao acervo de jóias da Coroa, o livro passo ao Arquivo da Companhia das Índias, e daí, por artes de algum fidalgo de Castela, à Biblioteca dos Vice-Reis do Peru, na cidade de Lima. Ali dormiu ele esquecido, numa ruma de incunábulos antigos, sem ser sequer catalogado, não tanto por incúria, mas sobretudo pela impossibilidade de catalogação: era uma obra sem título e sem autor, escrita em três línguas antigas.

O Chile é um país singular na América do Sul. Estreito nastro de terra entre os Andes e o Pacífico, com mais de oito mil quilômetros de litoral, estética-se dos desertos do norte às ilhas do sul, ao Estreito de Magalhães e à Terra do Fogo, para lá de Punta Arenas, a cidade mais austral do mundo. Seus habitantes esperam sempre a hora de ver o país desabado no Oceano, por um dos terremotos intermitentes a que se habituaram, ou pelo furor dos vulcões que adornam e ameaçam teatralmente sua paisagem, de norte a sul. Não digamos de leste a oeste, porque ali se confundem as latitudes, de tão próximas que se encontram. O Chile não tem quatro pontos cardeais, como os espaços do mundo em geral. Ali há apenas dois: o norte e o sul. Esta bizarra geografia leva os habitantes do país à beleza de inesperadas aventuras. É o único país da América Latina que tem uma colônia nos confins da Polinésia, isto quando Europa já não tem mais colônias. É a única república hispano-americana com vocação imperial. Declarou guerra ao Peru e à Bolívia - com justa causa, diga-se de passagem . em 1879. Bateu os dois adversários, ocupou a cidade de Lima e trouxe para Santiago, como butim de guerra, o mais precioso patrimônio de Biblioteca dos Vice-Reis, numa depredação ainda hoje amaldiçoada pelos historiadores peruanos, como o bom Ricardo Palma. Num dos lotes deste patrimônio estava um maço de papiros antigos que, antes de ser classificado nos anaguéis da Biblioteca Nacional de Santiago, ficou exposto na grande mesa de caoba chilena anexa ao Gabinete do Diretor da instituição. Ali permaneceu durante anos, até que um dia o manuseou o historiador Dom Domingo Amunátegui, diretor da Biblioteca. Distraidamente contemplava os venerados fragmentos, quando de repente estacou, como fulminado por um raio: os estranhos caracteres se ordenavam numa luz verde formando sílabas e palavras na própria língua de Dom Domingo Amunátegui - o claro castelhano de Cervantes e Quevedo. Era inexplicável. Lembrou-se um instante das idéias extravagantes do poeta Vicente Huidobro, que inventara uma escola poética, o criacionismo, segundo a qual um poema escrito dentro de suas formas de expressão podia ser traduzido para qualquer língua. Mas isto era outra coisa.

Além do mais, não gostava de Vicente Huidobro, embora soubesse que era o poeta maior de sue país. Trêmulo e pálido, Dom Domingo Amunátegui pegou o maço de papiros, enfiou em sua pasta de couro, sempre cheia de alfarrábios históricos, meteu-se em seu sobretudo de camelo, enrolou no pescoço a bufanda de vicunha - única coisa boliviana que tolerava . cobriu-se com o chapéu Gelot que não abandonava, mandou chamar o chofér e tocou apressadamente para casa. Subiu rápido para seus aposentos, abriu os papiros, e estremeceu. As pernas lhe faltaram, a bengala caíra, e desabou no tapete com um grito de horror. Os familiares acorreram, trouxeram um médico às pressas. Estava com quarenta graus de febre, a pressão na estratosfera e o coração saltando no peito. Deram-lhe sedativos, parecia adormecido de olhos abertos e passou a noite delirando, pronunciando palavras inintelígiveis. Pela manhã parecia melhor. Levantaram os travesseiros e o sentaram na cama para tomar uma xícara de chá. De repente, seus olhos deram com os velhos papéis espalhados na mesa. Ao vê-los, todo o seu corpo estremeceu, soltou um grito lancinante e caiu fulminado por um ataque do coração.
Vinte quatro horas depois, todo o Chile sabia que o grande historiador morrera em sua lei: lendo e consultando um velho documento histórico. Era o que dizia em noticiário de página inteira o Mercúrio de Santiago. O presidente da República, Ministros de Estado, Senadores, deputados, o colégio de professores da Universidade com suas becas da Casa de Andrés Bello, a nata do Club Unión, as cinqüenta famílias do Gotha chileno, acompanharam no dia seguinte as pompas fúnebres armadas, em inédita parceria, por "Azócar Funerales" e "Forlivesi Pompas Fúnebres", duas nobres "griffes" da morte naquele tempo. A carruagem negra com cocheiros de fraque e cartola desceu a Alameda Bernardo O'Higgins até o grand finale da apoteose no campo santo.

Mas esta é a história de Edi Simons e não de Dom Domingo, que deve ser escrita por algum de seus netos, talvez Juan Pablo Iommi.Amunátegui, autor de um livro histórico monumental, editado em Paris, chamado Le Grand Livre des Dates. Mas se a vida das pessoas é sempre uma inesperada crônica de caminhos cruzados, a de Edi Simons foi um labirinto de surpresas onde todos encontravam todos, e todos se desencontravam todos, e todos se desencontravam de todos. Pois foi aí que a vida do poeta panamenho se cruzou com a morte de Dom Domingo Amunátegui.

A mais demorada estadia de Edi, depois que saiu do Panamá, sem falar em Paris, foi no Chile, Ali esteve longamente integrado ao Instituto de Arte da Escola de Arquitetura da Universidade Católica de Valparaíso, fundado pelos companheiros de Alberto Cruz e Godofredo Iommi. O grupo de arquitetos, pintores e poetas ali reunidos constituía uma orquestra ou um coral em que, cada um, embora empenhado na mesma sonata, sabia fazer o solo de seu próprio instrumento ou de sua própria garganta. A eminência de Alberto e de Godo obedecia a uma espécie de fé, sustentada por um símbolo e manifestada por um emblema. Os dois foram sagrados, numa hegemonia silenciosa e natural, como emblemas de uma fé comum na profissão da arte e da beleza, em que a unidade platônica do convívio se tecia do gosto e da bravura de cada um. Pois cada um podia e devia sonhar seu próprio no rio de sonhos em que navegavam juntos, na mera busca do vero e do belo, no espaço de nossa tribo e no tempo de nosso tempo. Não era uma ordem religiosa, nem uma sociedade de interesses, nem uma escola literária ou artística, monótona como todas as escolas. Era, na verdade, aquela pequena capela, silenciosa e serena, imaginada por Goethe para o convívio dos seres humanos decididos a tocar a pele do mundo sub specie aeternitatis. Não sei de santuário mais puro e mais fecundo para a sobrevivência de artistas e poetas nestes tempos indigentes e depravados por imposturas ideológicas. Edi Simons chegou ali por consenso de todos e pela mão de Godo, que o introduzira, anos antes, na aventura das Phalènes. Ele viveu, na verdade, como peixe na água, entre os amigos de Viña del Mar, onde todos reconhecemos, a grandeza e a beleza de poeta em estado de graça, de poeta absoluto que ele foi até à morte.

Um dia, para confirmar talvez a trágica imprecação de Oscar Wilde, segundo a qual sempre matamos aquilo que amamos, Edi encheu-se de inexplicável e repentino furor contra o Instituto de Arte, e particularmente contra Alberto Cruz e Godfredo Iommi, embora cultivasse até à morte comovedor e fervoroso afeto, pessoal e poético, por alguns de nós, creio que especialmente por Miguel Eyquem e por mim mesmo. Aliás, também em Paris, os humores de sua amizade eram incertos e instáveis, voltando-se às vezes contra Juan Pablo ou contra Christos Cléris. Creio que em alguns períodos de sua amorosidade lunar o lunática, chegou a variar sua ternura pelo poeta inglês Jonhatan Boulting e até por nosso querido Robert Marteau, a quem considerava um dos maiores poetas franceses de nossos dias. E assim por diante. Eram terremotos sazonais. Creio que também sua amizade com Michel Déguy, que situava ao lado de Marteau na escala de grandeza poética, nunca chegou a deteriorar-se, embora sem a intimidade calorosa e comovedora de suas relações pessoais e espirituais com Fraçois Fédier, para ele, como para todos nós, a figura mais alta da filosofia na França nestes tempos. Mas isto é outra história. Até porque não se trata aqui de contar a história das amizades ou das alergias afetivas de Edi, mas apenas de dar uma noticia do livro dos olhos do gato.

A noticia sobre o Instituto de Arte de Valparaíso e a morte de Dom Domingo Amunátegui são um capítulo da história de Edi Simons. Dom Domingo Amunátegui era pai dessa inesquecível Ximena Amunátegui de Iommi, mulher de Godofredo Iommi. No dia seguinte à norte do pai, Ximena recolheu alguns de seus objetos pessoais. Com eles foi metido num velho baú quitenho, floreado de desenhos coloridos, o maço de fragmentos do livro dos olhos do gato - verdadeira causa mortis do historiador, embora ninguém, nem o médico que atestou o óbito, tenha suspeitado disso. Tempos depois levou o baú para sua casa do Cerro Castillo, onde nunca lhe deram atenção. Um dia suas filhas o abriram no meio da sala e começaram a divertir-se com um velho par de luvas de pele de porco, uma tabaqueira de marfim, um relógio de bolso redondo, uma cigarreira de prata peruana com as iniciais do morto, essas coisas nostalgicas que sempre sugerem a ressurreição fingida de nossos mortos. De repente, tiraram do fundo da canastra um maço de manuscritos. Velho farejador de papéis antigos, desde os dias em que trabalhou, quando estudante, na biblioteca da Universidade de Madrid e no Instituto de Hautes Études em Pais, e depois, como consultor e tradutor de velhos documentos contratado pela Unesco, em Genebra, Edi Simons apoderou-se do alfarrábio. Passou o resto da noite na leitura de sua escritura espectral, e retirou-se visivelmente agitado. No dia seguinte, e no outro e no outro, não sei quantas vezes, voltou às escrituras cifradas, e começou a escrever com incontinência, noites inteiras, na pequena sala de nosso apartamento em Pasaje Anwandter, a pequena rua sem saída em que vivíamos.
Um dia, ao chegar para o exame das misteriosas escrituras trilíngües, recebeu um golpe inesperado: Alberto e Godo tinham levado os papiros para a primeira casa que estavam construindo junto à ágora da Cidade Aberta, a mundialmente lendária aventura urbanística e arquitetônica inventada pelo Instituto de Arte, nas dunas de Ritoque, perto de Viña del Mar. Mas não disse nada, na esperança de que os dois amigos não tivessem conseguido um contato de primeiro grau com as letras enigmáticas do alfarrábio, e acabassem restituindo-o ao baú quitenho, que continuava em poder de Ximena. Há algumas semanas ao comparecer às comemorações da morte de Godo, cascavilhei todas as casas da Cidade Aberta, mas ninguém sabia de nada, Perguntei a Jimenita, a Francesca e a Renata pelo belo baú quitenho, mas parece que uma delas o levou para a França, deixando talvez na casa de Juan Pablo, ancorado num velho bairro alegre de Paris. Tive uma vaga suspeita de que os papéis do Livro dos Olhos do Gato poderiam estar nas mãos de Godofredo Iommi Amunátegui, professor de altas Matemáticas numa Universidade chilena. Suas respostas a minhas cautelosas preguntas foram ambígüas e incertas. E o poeta matemático, que tem a cara do avô historiador, as astúcias da mãe e a estrela criadora do pai, tornou-se um homem estranho e reservado desde o início de suas relações com la belle Dame sans merci. Mas, ainda uma vez, isto é outra história.

O certo é que vinha Edi um dia, sentado com Claudio Girola no banco trazeiro do carrão de Fábio Cruz, que guiava ao lado de Alberto, com quem começara um verdadeiro diálogo platônico em torno dos floreios do arquiteto Eupalinos, revivido na fantasia de Paul Valéry. De repente, Girola cutucou o poeta panamenho e cochichou-lhe ao ouvido: "presta atenção, que esta conversa vai ficar na história". Alberto discorria (segundo Edi) sobre seu entendimento da arquitetura, partida apenas de uma idéia. A idéia, como em Platão, precedia a matéria, gerava a matéria, que se incorporava num projeto, pendida, afinal, sobre ele, como as estalactites da gruta platônica. Fábio, ao contrário, partia da matéria. Entendia que o caminho lícito para o acesso à construção, para incorporar o material, era a própria matéria, como parece que faziam os gregos. O princípio o fim da construção a ser alcançada, não era a idéia, mas a matéria, coisa da en-verga-dura de uma obra, cujo destino final não é o de durar, mas o de perecer.
Não assisti a essa refinada discussão. Nem eu, nem José Vial Armstrong, também arquiteto do Instituto, que com seu rigor da matemática musical sabia exatamente a tênue linha divisória da fronteira entre o espírito e a matéria, entre uma idéia e um tijolo, entre um risco abstrato na prancheta e um bloco de cimento ou de granito. Também não a ouviu Tuto Baeza, que era uma espécie de sacerdote e servidor do méson grego, o juste milieu. Nem Pancho Méndez, para quem no princípio era a cor, e a cor estava no mundo e o mundo era a cor. Alberto Vial, que falava sempre com frases matemáticas irrefutáveis, teria glosado o diálogo com uma elipse ou um trapézio. Outros membros mais jovens do Instituto, como Juan Purcell ou Pino Sánchez eram pessoas de cartas marcadas neste jogo, como os ainda mais jovens, Manuel Casanueva, Virgílio Rodríguez Beteta, Jorge Ferrada ou Carlos Covarrubias, autor de uma elegia a Paulinho Ramos. Miguel Eyquem talvez tivesse dito que a arquitetura é a coisa mais fácil do mundo, aussi simple qu'une phrase musicale, mas que só se podia falar sobre ela do alto de uma corda pendurada sobre o abismo. Godo era abertamente partidário da idéia e da matéria indissolúveis, equilibrando-se e arriscando-se na corda estendida sobre o abismo. Eu mesmo, que fui sempre um habitante do abismo, chamado "Conde do Abismo" pelos companheiros da adolescência, opinaria talvez dizendo que a boa arquitetura não pode ser feita senão no fundo dos abismos. Mas esta opinião vale pouco, não sou arquiteto de construções, sou apenas um arquiteto de desastres, minha vocação neste mundo que está aí não é a do sucesso, mas a de um empreiteiro de demolições, como queria ser Flaubert. E como Camus que dividia o mundo entre os que fazem a história e os que sofrem a história, também eu tenho vivido, não para fazer a arquitetura, mas para sofrer a arquitetura. E como a tenho sofrido, de Brasília a Pequim! Edi tentou ainda ouvir a opinião dos dois outros sobreviventes da Santa Hermandad de la Orquídea, tribunal do Santo Ofício poético a que se curvaria Godo.  Chamou por telefone a Raul, na estância balneária argentina de Pinamar. O poeta Raul Young, com sua voz flexível e sua certeira pontaria de lançador de dardos, era também fonoaudiólogo e psicólogo, usando de um registro de voz situado entre a comédia e a tragédia, encerrou a questão, informando com, estudada sutileza, que as únicas diferenças que lhe interessavam eram entre a physis e a physica. Abdias, que andava à época travestido de Senador da Repúblicam nas oermanecia fiel às suas origens, a negritude e a Santa Hermandad, onde todos os seus drúidas eram jurados a sabedorias insondáveis. E mais não disse. Mas isto também é outra história.

O que vim a saber por Cláudio Girola é que o diálogo platônico de Fábio e Alberto teve lances fulgurantes, que ele mesmo não sabia contar e que eu não saberia reproduzir. O que é certo é que, de repente, Edi Simons pedio abruptamente que parassem o carro e saltou, sem maiores explicações no meio da rua. Rodeou a praça verde onde um imenso relógio de flores na encosta do outeiro faz o encanto dos turistas ingênuos, parou em frente de um monumento de pedra que celebra o desembarque de Garibaldi no Chile, antes de partir para a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, onde comandou regimentos de gaúchos nos entreveiros sangrentos do pampa e das serras brasileiras. Tentou ler a inscrição no monumento, mas não conseguiu. Estava violentamente perturbado, e não era admirador de Garibaldi.

Veio encontrar-me no bar do Samoyedo, e perguntou à queima-roupa se eu tinha vista o livro dos olhos de gato. Minha negativa foi convincente. Um por um interpelou os arquitetos do Instituto. Godo respondeu-lhe enigmaticamente que "tantas letras tiene un sí como un no" e que não há nada tão parecido a duas letras como outras duas letras. Chegou em casa enfurecido. Sua fúria foi desencadeada especialmente contra Alberto Cruz e Godofredo Iommi. Estava certo de que os dois se haviam iniciado no saber infinito do livro dos olhos do gato e lhe negavam acesso às velhas escrituras do baú quitenho. Fez especiosas investigações entre os membros do Instituto. Afinal, todos eram oriundos da melhor cepa familiar das cinqüenta famílias do Chile, e tinham na genealogia antepassados gloriosos da Guerra do Pacífico. Todos eles sabiam, até por conversas familiares, que a Biblioteca de Lima fora depredada pelos vencedores chilenos, e trazida para Santiago como butim cultural, e que entre os confiscos havia preciosos manuscritos e incunábulos. Contra Alberto Cruz tinha provas definitivas: o diálogo de Alberto com Fábio repetia literalmente a sabedoria sobrenatural das informações fiel de instruções que nenhum ser humano seria capaz de produzir e que vinham dos textos pentecostais lidos à luz dos olhos de gato.

Passou a falar e escrever furiosamente contra Godo e Alberto. Eu mesmo o interpelei em Paris sobre esta incontinência de juízo. Respondeu textualmente: "celebrarei até à morte a poesia de Godo e a arquitetura de Alberto. Mas até à morte increparei a usurpação do direito de saber, em que os dois incorreram, ao apoderar-se do livro divino que eu começara a ler".

O Livro dos Olhos do Gato foi o unfinished touch de sua última conversa no mundo com os amigos que cultivava - o livro que começou a ler, mas não terminou, o toque que iniciou, o retoque que não chegou ao fim. Todos sabemos disto, inclusive Godo, que o precedeu de algumas semanas na viagem para a eternidade, onde o terá recebido com um sorriso redentor. Inclusive Alberto Cruz, que quando eu comuniquei a morte de Edison Simons, na cerimônia memorial das exéquias de Godofredo Iommi, na ágora dos convidados, na Cidade Aberta, levou as mãos ao peito, moveu aflito sua cabeça branca, talvez com lágrimas nos olhos, e exclamou, num suspiro compassivo de contido e incontido amor: "Edi"!

Quanto a mim, nunca desertei da indulgência, do bom humor e da amorosa admiração com que a presença de Edi Simons e de sua sabedoria poética iluminaram alguns dos mais belos e mais dignos momentos de minha própria vida. Diante de suas iras sagradas, não podia mais do que sorrir, à confirmação do aforismo latino que fala do "irritabile genus vatum". O gênio dos poetas não é fácil. Juvenal, lembrava, em sua primeira Sátira, que "facit indignativo versum"- é a indignação que escreve o verso. E enfim, a compassiva compreensão de Plínio, o Moço: "poetis furere concessum est". Os deuses concederam aos poetas o poder, o dever e o prazer de desencadear suas próprias fúrias. Não estou certo que este seja o retrato de Edison Simons. Só Homero pôde ter a certeza de retratar um morto em seu funeral. Mas Edi Simons não precisa de retratos. Nunca terá retratos. Ele é um ícone. Como Linos e Orfeu. Como aqueles ícones bizantinos imaginários em que pensamos ver a lenda do rosto dos santos, dos profetas e dos arcanjos. De modo que este não é o seu rosto, de vivo ou de morto. Mas talvez será a lenda de seu rosto, o rosto lendário de Edison Simons Quiroz, brisa e flor das águas do Panamá, poeta absoluto.

Rio de Janeiro, junho de 2001

P.S. 1 - No número especial da revista "Talingo"[3], dedicado a Edi Simons, depois de sua morte, Manuel Goiás escreve: "Simons busca o consigue expresar las verdades que nace de las mentiras, es decir, que germinan a partir de la mejor literatura". Devo informar que mandei um dia a Edi Simons algumas notas em louvor da mentira, sobre a qual repousam as verdades da fé religiosa, da cultura e da história do Ocidente. Falamos da mentira fundadora da verdade, como a de Jacó, no Vehlho Testamento, da qual dizia Santo Agostinho: "non mendacium, sed mysterium" - (não mentira, mas mistério). Da mentira de Hoelderlin e de Baudelaire, de Goethe e de Rimbaud, da mentira de Platão e Dostoievski, do Quixote e do Dante. Da mentira libertadora e salvadora de São Francisco de Assis, sem a qual se obscurece a verdade, se perde a liberdade e se impede a salvação. Edi enviou-me em seguida um breve ensaio, lembrando o poeta português Fernando Pessoa, para quem o poeta é um fingidor, isto é, um oficial do ofício de mentir. Celebrou a beleza da mentira - não a impostura, própria dos súcubos e íncubos da política e da publicidade, - mas a mentira agustiniana, que concebe e gera o mistério, "locus" original da verdade. Estou procurando onde meti essa carta na babel de meus papéis. Lembro-me de que ele dizia: "Joyce não mente. Euclides não mente. Sarmiento não mente". Referia-se a Euclides da Cunha, o homem de Canudos, a Sarmiento, o homem de Facundo e às fosforescentes mentiras de James Joyce.

P.S. 2 - Excetuando as pessoas citadas cuja morte é notória ou está aqui consignada, mas que existiram realmente, todas as outras, referidas por seus nomes, existem, estão vivas, e são testemunhas da breve e intensa aventura humana de Edison Simons.


GMM

Notas

  1. Christos Clairis: Christos Clairis: Litouryikí Glosoloyía Lingüística Funcional
  2. Nicole d'Amonville edita y escribe el prólogo de 'Mosaicos' de Edison Simons. Galaxia Gutenberg / Círculo de Lectores. Barcelona, 2009.
  3. Aparecida el Domingo 27 de Mayo de 2001